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Encontrando Sentido na Desatenção do TDAH

Escrito por Eduardo Perez | 11/07/2026 17:59

O TDAH é frequentemente enquadrado por uma lente puramente neurobiológica e de déficit. Os manuais diagnósticos listam sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade, e a abordagem padrão, com grande mérito e eficácia, muitas vezes combina psicoterapias como a TCC com manejo farmacológico.

A TCC é uma ferramenta poderosa para desenvolver habilidades de organização, regulação emocional e reestruturação de pensamentos disfuncionais. No entanto, uma pergunta crucial muitas vezes fica sem resposta no processo terapêutico: para quê? É aqui que a Logoterapia, criada por Viktor Frankl, surge não como substituta, mas como uma poderosa aliada, oferecendo uma dimensão existencial que pode transformar a vivência do TDAH.

A Vontade de Sentido como Força Motriz

A Logoterapia, ou "terapia do sentido", parte do princípio de que a força motivadora primária do ser humano não é o prazer (Freud) ou o poder (Adler), mas a vontade de sentido. Frankl acreditava que podemos encontrar significado mesmo diante do sofrimento inevitável, e que essa descoberta é profundamente terapêutica.

Para indivíduos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que frequentemente enfrentam frustrações crônicas, baixa autoestima, sensação de fracasso e o questionamento "por que tudo é tão difícil para mim?", essa abordagem pode ser revolucionária. Em vez de focar apenas na redução dos sintomas, a Logoterapia convida a pessoa a olhar para suas potencialidades únicas.

O hiperfoco, por exemplo, muitas vezes visto como um problema, pode ser ressignificado como uma capacidade profunda de mergulhar em temas de grande interesse pessoal. A criatividade, a energia, a capacidade de pensar fora da caixa e a sensibilidade aguçada – traços comuns no TDAH – são reposicionados não como defeitos a serem eliminados, mas como ferramentas para realizar valores.

TCC e Logoterapia

A integração entre a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Logoterapia cria um modelo de tratamento holístico e fortalecedor. Enquanto a TCC fornece a caixa de ferramentas (técnicas para planejamento, manejo do tempo, controle da impulsividade), a Logoterapia fornece o projeto de vida (o propósito que motiva o uso dessas ferramentas).

Um estudo de Halama (2014) investigou intervenções baseadas em significado e encontrou correlações positivas entre a presença de sentido na vida e melhores estratégias de enfrentamento, sugerindo que o foco existencial pode melhorar a funcionalidade prática.

Os Três Caminhos para o Sentido

A prática logoterapêutica no TDAH se dá através de três vias principais, conforme proposto por Frankl:

  • Valores de Criação: encontrar sentido através do que damos ao mundo. A pessoa com TDAH é guiada a identificar projetos, trabalhos ou hobbies que ressoem com suas paixões e utilizem seus pontos fortes neurodivergentes. A energia e a criatividade encontram um canal produtivo.
  • Valores de Experiência: encontrar sentido através do que recebemos do mundo. Isso envolve cultivar a consciência plena (mindfulness) para apreciar momentos de conexão, beleza e amor. Para uma mente acelerada, práticas que ancoram o pensamento no presente são duplamente valiosas, sendo também uma técnica da TCC.
  • Valores de Atitude: esta é a forma mais profunda de encontrar sentido na vida. Refere-se à postura que adotamos diante de um sofrimento inevitável. Para o adulto com TDAH, isso pode significar aceitar o diagnóstico não como uma sentença, mas como um aspecto desafiador de sua identidade, e escolher uma atitude de resiliência, humor e coragem para seguir em frente apesar das dificuldades.

A integração dessas três vias permite que o indivíduo com TDAH não fique preso a apenas um estado mental, mas aprenda a navegar entre a expectativa do futuro, a presença do agora e a aceitação da sua história. Essa capacidade de transitar conscientemente entre diferentes dimensões da existência promove a flexibilidade psicológica, transformando a percepção do transtorno em uma jornada de crescimento. Essa correlação entre a adaptabilidade mental e a saúde emocional é corroborada por evidências científicas recentes.

Uma pesquisa publicada na Frontiers in Psychology demonstrou que a flexibilidade psicológica e a autocompaixão são preditores de bem-estar, e parte desse efeito ocorre por meio de uma perspectiva temporal equilibrada — isto é, a capacidade de alternar de forma adaptativa entre passado, presente e futuro (Pyszkowska, 2021).

A Sinergia Entre Sentido e Funcionalidade

A descoberta de propósito atua como um modulador natural da atenção e da motivação. Neurocientificamente, sabemos que circuitos envolvendo dopamina e norepinefrina estão desregulados no TDAH. Quando uma atividade está intrinsecamente alinhada com os valores e interesses profundos do indivíduo, ela gera engajamento e recompensa interna, potencialmente recrutando esses sistemas neuroquímicos de forma mais eficaz.

Um estudo publicado no Personality and Social Psychology Bulletin concluiu que as pessoas julgam o sentido de seus comportamentos orientados a metas com base em duas fontes independentes: desempenho percebido e autocongruência — e qualquer uma delas, isoladamente, é suficiente para sustentar a sensação de significado (Zhang, 2018).

Mesmo quando falham, se a meta é autocongruente, ela ainda parece significativa. Isso sugere que o sentido percebido em metas não depende de um único critério, mas de um sistema compensatório no qual valores pessoais e sucesso percebido funcionam como fontes alternativas de significado.

Outro estudo publicado no Journal of Attention Disorders reforça que intervenções psicossociais estruturadas, quando focadas em habilidades executivas, não apenas complementam o tratamento medicamentoso, mas podem ser decisivas para adultos que enfrentam dificuldades persistentes de organização, planejamento e autorregulação (Solanto, 2008).

Do Controle à Plenitude

Em conclusão, o tratamento do TDAH não precisa ser uma jornada apenas de gerenciamento de déficits. Ao integrar a sabedoria prática da TCC com a profundidade existencial da Logoterapia, oferecemos um caminho duplo: tornar-se mais funcional e tornar-se mais pleno.

A pergunta deixa de ser apenas "Como posso me concentrar melhor?" e transforma-se em "No que vale a pena eu me concentrar?". Redescobrir o TDAH através da lente do significado permite que indivíduos transformem seus desafios em uma trajetória única de contribuição, resiliência e autenticidade, encontrando não apenas controle, mas, acima de tudo, uma vida que vale a pena ser vivida.

Referências

FRANKL, V.E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Sinoidal, 1991.

HALAMA, P. Meaning in life and coping: sense of meaning as a buffer against stress. Springer. 2014. DOI: 10.1007/978-1-4939-0308-5_14.

HENG, H. et al. The role of self-compassion in mental health among early adulthood with ADHD symptoms: a network psychometric approach. BMC Psychology. 2025. DOI: 10.1186/s40359-025-03120-1.

PYSZKOWSKA, A.; RÖNNLUND, M. Psychological flexibility and self-compassion as predictors of well-being: mediating role of a balanced time perspective. Frontiers in Psychology. 2021. DOI: 10.3389/fpsyg.2021.671746.

RAMSAY, J.R.; ROSTAIN, A.L. Cognitive-behavioral therapy for adult ADHD: an integrative psychosocial and medical approach. Routledge. 2008. DOI: 10.4324/9780203844519.

SOLANTO, M.V. et al. Development of a new psychosocial treatment for adult ADHD. Journal of Attention Disorders. 2008. DOI: 10.1177/1087054707305100.

ZHANG, H.; CHEN, K.; SCHLEGEL, R. How do people judge meaning in goal-directed behaviors: the interplay between self-concordance and performance. Personality and Social Psychology Bulletin. 2018. DOI: 10.1177/014616721877133.